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Opinião · Política · Coluna

Um apetite nada concilial:
Prato Gótico

Um partido nasce contra o velho centro — e serve, no meio do caminho, um prato bonito por cima e podre por baixo.

Willhelm · opinião do autor · 19/10/2026

A fundação de uma nova linha de pensamento político nacional traz uma aposta ousada: a de que a vontade popular, crua, pode enfim habitar o eu incorpóreo da nação — esse corpo abstrato de instituições e ideais em que o povo real nunca coubera. É uma bela promessa. Mas um partido é feito de gente, e carrega consigo os vícios e os gostos do eu corpóreo da população — os mesmos de sempre.

É um projeto ainda em formação, de quadros jovens e pouca experiência de governo. O contraste com o velho centro é real, e é o que há de melhor nele. O problema aparece na hora de escolher, entre tantos nomes, quem carrega a bandeira nacional.

Um desses nomes é uma figura do Sul, de base firmada em São Paulo, que se apresenta como fundadora de uma corrente chamada “conciliacionismo de gênero”. Ganhou espaço rápido na comunicação do partido e foi lançada pré-candidata pelo Rio de Janeiro — um estado onde não construiu base. Escrevo como fluminense, e admito o incômodo: um partido que promete renovar a política importa candidatura pronta justamente quando os quadros locais ainda estão em baixa. Não é só ciúme regional; é um padrão — a nacional decide em São Paulo, exporta nome para o Rio, e quem construiu chão ali vira coadjuvante da própria eleição.

A estratégia de comunicação também merece reparo. Transmissões de horas que diluem o debate político em reação a fofoca de celebridade — feitas para reter público e alimentar algoritmo, não para aprofundar ideia.

O episódio que a expôs foi outro. Um conflito interno menor escalou, e vieram as acusações: uma alegada tentativa de aproximação estratégica ao presidente do partido, com táticas tiradas de manuais de conquista gerados por inteligência artificial. A imprensa registrou o caso. Sobrou o retrato de uma ascensão amadora, que sacrificou uma candidatura federal viável por uma disputa interna indisciplinada.

No plano das ideias, o “conciliacionismo de gênero” — apresentado como movimento para reconstruir a ponte entre homens e mulheres pela razão e pela ciência — se revela vago. Não há corpo teórico, não há proposta: há um conceito. E conceito não governa. As posições públicas parecem calculadas para agradar um público jovem e masculino, com argumento superficial no lugar de programa.

E não é sobre uma pessoa só. É sobre o que o partido premia: estética e engajamento no lugar de base e tese. O mesmo se vê nos grupos menores do movimento.

Fica a pergunta que interessa: o partido vai aprender a lançar candidatos pela proposta que defendem, ou vai seguir lançando pela estética e pelo barulho? Enquanto a resposta não vem, o “conciliacionismo” segue sendo, na prática, uma marca sem produto — e o Rio, uma vitrine emprestada.

Opinião do autor

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